Conto – Silvia Morreu

Silvia Morreu

publicado originalmente em 01/07/2011

Então, ela morreu. Fazia tempo que andava mais do lado do barqueiro do que dos vivos. Caso fosse culpada de um só fato, poderíamos falar, sem qualquer dúvida, que a bebida a matara.

 Sílvia. Sílvia era o nome da mulher. Trinta e poucos anos, mas com jeito de pessoa que passou pelos cinquenta há um bom tempo. Nas ruas por onde andava trôpega era chamada apenas de negrinha, não nesse tom pejorativo típico de crianças mal-educadas, pois soava até carinhoso, principalmente quando vindo de seu amor, Vivi.

O nome dele poucos sabem, a única certeza é a sua moradia, uma casa sem telhados feita juntando entulhos de toda sorte. Conhecido pelos vizinhos pela sua educação, algo difícil de imaginar por culpa de preconceitos que todos nós temos. Seus cabelos grisalhos revelam poucos fios ainda loiros, o boato que corre à boca pequena indica uma descendência ucraniana ou de qualquer outro país considerado exótico para nós tropicais.

No dia depois da morte de Sílvia, Vivi ainda remoía em seu cachimbo, além do fumo, a saudade de sua preta. Como ele amava aquela mulher. Nos últimos dias, a danada dera de adotar uma pomba que pousada em seu ombro andava de um lado para o outro como companhia. Era difícil saber quem mais sofrera maus tratos, a ave ou a mulher. O bicho com sua pata dilacerada por linha de pipa ainda se recuperava enquanto recebia carinho de Sílvia. Era raro ver as duas separadas, quando ganhavam uma bolacha ou biscoito de polvilho, elas repartiam a comida, Silvia sentada na guia e a pomba sobre seu colo. Triste e comovente ao mesmo tempo.

O único lugar que a pomba não entrava era no bar. Parece que sabia o que o destino reservava para sua amiga. Ao menor cheiro de álcool, a ave já voava para longe. Ficava em cima de uma casa sem moradores em frente ao bar esperando Sílvia ficar sóbria. No dia seguinte, quando a ressaca tomava conta, a pomba pousava entre as sustentações do telhado e esperava Sílvia acordar de seu sono alcoolista. Quando abria o olho, a pomba já se aninhava em seu colo buscando aconchego.

 

O fumo de corda queima lento no cachimbo de madeira escura. Uma lágrima desce pelo rosto do velho Vivi. Era uma das poucas mulheres que ele amou. No fundo de uma garrafa de aguardente um restinho de depressão descansando. Vivi toma de uma só vez e segue até o velório.

Espera o ônibus um bom tempo sob o sol até que o transporte aparece. Ele senta em um dos bancos e os outros passageiros saem de perto, talvez pelo cheiro de pinga impregnado em suas roupas. Vivi olha para suas mãos sujas de trabalho. Alguns vizinhos o pagavam em troca de levar entulho ou aparar o mato que cerca os quintais. Além disso, há muito que sentem dó e entregam dinheiro por boa caridade para um necessitado. Suas unhas pretas tamborilam no banco em vão à procura de sossego.

O velório é visível quando Vivi desce do ônibus. Suas botas puídas tocam o asfalto e o calor lhe fere os pés, com calma ele percebe um furo grande em seu calçado, quando tiver tempo ele fará uma palmilha de papelão para não mais sentir dor. O prédio em que o velório ocorre é decadente, paredes descascadas e pintura que já viu muito choro e vela. Em uma sala ladrilhada, se vê um pequeno grupo, Vivi se aproxima, porém nem reconhece sua mulher.

 

“Ei, Vivi, é por aqui!”, grita um rapaz do outro lado indicando o caminho certo. Sete pessoas. Amigos de bar não são bons companheiros para ir a um velório. Preferem a calma do bar e o conforto da pinga. O silêncio predomina. Ninguém sabe ao certo se dá condolências ou reflete sobre a cirrose que consumiu Sílvia, de qualquer modo, a mudez torna-se o novo paletó.

Todos estão sentados e Vivi acha logo seu lugar e passa a contemplar seus próprios pés. O terno surrado de cor marrom proveniente de uma doação da igreja precisara apenas de uns poucos remendos. Alguns nem se vestiram para a ocasião, desfilando de camisetas furadas e bonés de eleição. Triste fim de Sílvia.

Um dos amigos trouxe por precaução uma garrafa de boa aguardente, o lacre rompe e o líquido desce amargamente feito realidade pela garganta, o vizinho do lado vê e faz gestos com a língua como se também precisasse. Em seguida, a bebida passa de mão em mão.

A primeira acaba e um deles mendiga um trocado no velório vizinho e outra garrafa é comprada. Mais uma termina. A terceira é rateada com o troco do ônibus de todo mundo e quase o responsável não volta do bar tamanha a bebedeira em que se encontrava para comprá-la.

Quando percebem todos estão bêbados chorando pela morte de Sílvia. “Ela era mulher de verdade”, anuncia Vivi. “Bebia feito macho”, declamava um dos colegas. “Sua perda deveria se tornar feriado nacional”, proclamava outro. As horas transcorriam e eles continuavam a beber a morta, alguns já dormiam ao lado do esquife emprestado da prefeitura, outros achavam falta de educação ser derrubado pela bebida em um velório e, corajosamente, permaneciam se embebedando.

No fim, sobrou Vivi de pé, acariciando a face de sua companheira morta. “Pretinha, por que você me deixou?”, reclamava sentindo o peso da injustiça a lhe corroer o estômago. Ela não poderia responder mais. Vivi imaginava se havia algum lugar reservado no céu para pessoas que nem eles, pobres cidadãos frutos da desigualdade e arrastados para a fuga rápida da bebida. Dragados para longe de suas famílias que agora apenas atravessavam a rua quando os viam. Deveria haver algum lugar para os fracos de espíritos como eles, e nele Sílvia encontraria sua paz. Poderia abraçar novamente sua mãe que morrera do mesmo mal, conheceria, talvez, seu pai que lhe abandonou quando ainda era bebê. Poderia, enfim, enxugar suas lágrimas no colo do Senhor.

Um resto de consciência ainda sobrara na garrafa. Vivi toma de um só gole e enxerga os servidores do velório vindo levar sua mulher, ele desperta seus amigos para um esforço final. Cada bêbado com sua alça de caixão levando vagarosamente a caixa pelas ruas tortas do cemitério. No final de uma ruela de barro pisado, o buraco daqueles que não tiveram identidade, família ou dinheiro. Sílvia juntará seus restos mortais a outros como ela, vidas destruídas por vícios ou falhas. Daqui alguns anos, a exumação revelará que tanto eles como os que puderam ter um jazigo próprio são feitos da mesma matéria. Não terá como diferenciá-los. O corpo é posto em uma vala comum.

Todos dão as mãos e rezam uma oração entrecortada e chorada. Doída no peito daqueles que sabem que a vida é frágil e sem sentido. Aos poucos, os corpos são cobertos por terra e nenhuma marcação é colocada, ninguém quer lembrar qual o seu último paradeiro. Logo a terra cobre o que as lágrimas teimavam fazer. Todos sentam perto da sepultura e acabam com mais uma garrafa ou duas, algo difícil de contar nesse estado.

Vivi toma as doses restantes e acaba deitando. Ele morre engasgado com seu próprio vômito. De longe, a pomba de Sílvia pousada sobre o telhado do prédio alça voo sem destino certo.

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Conto – A Loba

A Loba

publicado originalmente em 23/03/11

A neve cobre os telhados das casas, por sorte as ruas ficaram livres da imensidão branca. Por precaução Sebastian colocou correntes nos pneus de seu SUV, o aquecedor do carro ligado mal  consegue espantar o frio do lado de fora, mas lua-de-mel é para ser romântica, logo Alice não desgrudou um só segundo sequer dos braços de seu marido.

O caminho longo de curvas fatais é feito com a calma de quem foi taxista por muito tempo em Nova Iorque e é habituado ao trânsito selvagem. A idéia de passar sua romântica viagem nupcial nas montanhas canadenses foi de Alice, nada como se aconchegar no ombro de seu amado em frente da uma lareira enquanto o gelo toma conta do lado de fora.

Conforme o carro serpenteia pela estrada, ao longe já é possível ver o chalé. Com suas paredes de madeira e fundação de tijolos, o ar é de uma casa simpática e confortável. O telhado é vermelho escuro e muito inclinado, mas o que impressiona mesmo é a paisagem em volta, com suas árvores coníferas branqueadas pela neve e montanhas ao longe, com seus cumes que se misturam aos céus como se fosse possível atingir um paraíso através delas.

Logo que Alice chega no chalé sua boca se entreabre com a suntuosidade do local, todos os móveis feitos de madeira escura dão um charme especial à casa que conta com ofurô, lareira e a varanda com vista para o lago que nessa época do ano fica congelado. Sebastian sente que afinal poderá descansar do dia-a-dia.

Ele desce pelas escadas acarpetadas e vê Alice sorrindo olhando para a lareira.

– Ok, entrendi. Vou buscar lenha – ele diz.

Com o tempo de namoro e noivado Sebastian aprendeu a ler todas as expressões dela, tornando a comunicação dos dois praticamente muda. Ele veste um casaco xadrez e calça suas luvas grossas.

– Ótimo! Agora você está parecendo um lenhador – ironiza Alice enquanto abre as malas.

O lado de fora do chalé está congelando. Uma névoa sai da boca de Sebastian toda vez que respira. Ao lado da casa há uma pilha de toras prontas para a lareira, assim como um machado com um tronco já derrubado. O homem dá uma respirada forte e imagina que parte da graça é derrubar uma árvore e corta-la com seu próprio esforço.

Ele encontra uma árvore não muito grossa e começa a corta-la com golpes fortes de machado. Quando o tronco da árvore toca o chão, ele percebe que algo passa rápido entre a vegetação rasteira e se esconde. Movido pela curiosidade, ele vai atrás do que se moveu e encontra um filhote de lobo. Branco como a neve, provavelmente um Lobo Polar, perdido de sua ninhada. Tão pequeno e inofensivo que mais parece um cachorro perdido.

Dentro do chalé Alice começa a arrumar o almoço quando a porta abre, Sebastian passa com um monte de toras nos braços.

– Querida, tem uma coisa para você no meu bolso.

Alice larga as panelas e enfia as mãos no casaco de Sebastian e encontra algo, quando puxa vê o filhote de lobo, lindo e dócil como qualquer cachorro domesticado.

– Ele é lindo! Mas não temos como leva-lo.

– É claro que não, trouxe apenas para você ver. Não queremos um animal selvagem junto com o nosso filho – ele pousa a mão na barriga dela.

– Não tenha tanta certeza “pai”. Acho que é menina!

Eles sorriem um para o outro enquanto o lobo permanece na mão dela.

Quando anoitece o filhote mostra toda a sua graça tentando destruir tudo pela frente. Brinca com meias, sapatos e demonstra apetite enorme pelo strogonoff de carne. Com a lua alta no céu, o filhote de lobo fica cada vez mais agitado, afinal a criatura tem hábitos noturnos. Solta um ganidos estridentes tal qual um Husky Siberiano quando pequeno.

Entre um gemido e outro, do lado de fora um uivo poderoso corta a noite.

Alice olha temerosa para Sebastian e concordam em silêncio que a mãe pode estar querendo seu filhote de volta.

Sebastian pega o pequeno lobo e abre com cuidado a porta. Há poucos metros está a loba. Não precisa ser nenhum zoólogo para perceber que a Loba está pronta para o ataque. Seus pelos claros estão eriçados, os caninos amostra quase roubam a atenção para a falta de um olho do animal, provavelmente perdido em um briga. O rapaz deixa o filhote com cuidado no chão, fecha a porta e corre para a janela, junto de Alice, para ver o reencontro.

O filhote vêm pulando em direção à mãe, quando chega perto de seu focinho ela o derruba para que fique de barriga para cima e começa a cheira-lo. Alice se comove com a cena e solta suspiro fundo.

A loba cheira por um tempo e enfim morde a barriga do filhote tingindo de vermelho a neve. Alice aperta a mão de Sebastian. O animal, com a boca pingando de sangue olha uma última vez em direção à janela, a moça fecha a cortina como se pudesse afastar aquele olhar feroz.

A noite é permeada com pesadelos de lobos ferozes para o casal. Quando aparece o sol tímido pela manhã os dois ostentam olheiras fundas. Sebastian sai para pegar a lenha, desta vez não se aventurará de cortar uma árvore, ainda mais sabendo que há lobos por perto. Por precaução carrega uma espingarda consigo.

Tudo deserto no país do gelo. Apenas alguns pássaros que parecem que não se espantam com o frio e lebres correm de vez em quando pela neve assustando pela velocidade que o fazem.

A noite aparece mais uma vez e traz consigo o Foundue e o vinho. A lareira queima alto trazendo o conforto para os corações apaixonados. Subitamente um uivo corta o ar. O casal sente medo. Sebastian se levanta de seu ninho de conforto e segue até a janela, ergue um pedaço da cortina e desnuda o vidro, do outro lado a loba passa rodeando a casa tal qual animal preso em uma jaula, enraivecido por sua situação.

Sebastian pega sua espingarda, mas nem consegue girar a maçaneta pois Alice está entre ele e a porta.

– Querido – começa ela – não faça isso.

Com a mão ela afasta a arma. Eles não olham mais para fora pelo resto da noite

Último dia da estadia, amanhã quando o sol nascer eles já estarão na estrada. Com a chegada do crepúsculo, os medos voltam. Alice está arrumando as roupas nas malas quando percebe que está muito silencioso no térreo da casa. Ela grita pelo nome de Sebastian e não obtém resposta. Munida de coragem, desce pelas escadas barulhentas e logo consegue enxergar a porta de entrada aberta. Seu coração dispara com as possibilidades. Temendo pelo pior ela alcança o ferro da lareira e o empunha como se fosse arma e segue em direção da saída. Um vento gélido entra na sala e congela de medo Alice. Porém ela tem que continuar.

As pegadas na neve são deixadas para trás enquanto ela circunda a casa em busca do que pode ter acontecido. Logo ela encontra o que temia, a espingarda de Sebastian jaz no chão. Está nevando forte encobrindo qualquer pista para onde ele possa ter ido. Um uivo. Forte e diabólico atravessa a espinha de Alice. Ela se vira em direção ao som e vê uma sombra entre as árvores.

Alice corre. Seus pulmões querem estourar e a pulsação sanguínea quer romper as veias em busca da saída. Seus olhos embaçados pelas lágrimas não conseguem ver um galho que bloqueia a passagem e logo a moça cai no chão fazendo com que o ferro que carregava voasse para longe. Quando levanta a cabeça pode ver o corpo de Sebastian com as vísceras expostas e em cima da imensidão vermelha a loba se alimentando. Seu amado.

Alice só consegue ver e sentir o vermelho da vingança. A moça irrompe em fúria e ataca com as mãos nuas a loba. Tentando arrancar a pele do animal com unhas… e dentes. Ao final da briga não se pode mais diferenciar quem é o animal irracional e qual não é. Alice, debruçada sobre o corpo da loba, com os lábios cheios de sangue, desferindo dentadas no animal já morto.

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Conto – Vestido de Noiva

Vestido de Noiva

publicado originalmente 21/05/10

O barulho das máquinas de costura aos poucos vai diminuindo conforme os aparelhos são desligados. Quando a lua já está alta no céu só apenas a costura de João Carlos se faz ouvida, ininterrupta com linha reta firme, tal qual sua mãe lhe ensinara quando ele era um pequeno fascinado pelo trabalho de sua progenitora.
Agora com cinquenta anos de idade, João percebe que não saberia fazer nada além de costurar. Em sua oficina trabalham trinta mulheres que se revezam em três turnos. Algumas desenham, outras cortam os moldes e por fim têm as costureiras e bordadeiras que colocam o sonho em uma peça caprichada.
O Ateliê Santo Antônio faz a promessa do santo ganhar ares reais. Por mês mais de cinquenta vestidos de noiva são feitos e o dobro são reformados garantindo o grande sonho de se casar no mais puro branco de véu e grinalda. João ainda se lembra quando começou a ajudar sua mãe na costura, sempre tão dedicado, aprendeu rápido o ofício e ainda hoje mantém o costume de só parar de trabalhar depois que todos forem embora.
O galpão que hoje ocupa o ateliê em nada lembra o começo pobre, diversas araras cobrem as paredes com a alvura dos vestidos de noiva, a monotonia só é quebrada pelos vestidos coloridos de madrinhas e os fraques elegantes dos homens. São prateleira com sapatos envernizados, gavetas multicoloridas de gravatas e dezenas de caixas com coroas. Mas hoje, à meia-noite, tudo quieto, tudo sombrio.
João confere o relógio e diz para si mesmo que é hora de parar. Desliga sua velha Singer e a cobre com a capa de veludo azul. Tira seus óculos pesados e os guarda no bolso da camisa enquanto olha ao redor procurando algo fora do lugar. Uma caixa de papelão pousada sobre um banco lhe chama a atenção. Ele arruma seus suspensórios e anda até o cubo, um papel pousado em cima com fita adesiva conta o motivo.
Uma devolução.
Nem sempre acontece, mas pode ocorrer do casamento ser desmarcado por vários motivos, traição e falta de dinheiro para pagar pelo vestido são os mais recorrentes. Porém morte é o mais perturbador. João lê a ficha indicando que a noiva morreu durante um assalto há apenas dois dias do casório, a família, já traumatizada, não quis ficar com o vestido e o devolveu. O costureiro compreende o quão difícil deve ser para a família uma tragédia como essa.
Pode parecer aético, mas é uma verdade: O vestido será vendido para outra pessoa. Um vestido tão bonito assim, parado em uma caixa, não serve de muita coisa. É só questão de aparecer a noiva certa e apenas alguns ajustes e logo tudo estará novo em folha. Antônio levanta a peça pelos ombros e contempla o belo trabalho realizado, o cetim branco com as rendas em torno da cintura para garantir uma silhueta primorosa. Subitamente o contorno de um rosto passa pela saia como se alguém tivesse o vestindo. João assustado, joga longe a roupa. Uma gota de suor desce pela sua fronte e pousa na sobrancelha. O homem leva suas mão trêmulas à boca enquanto respira ofegante com os olhos fixos no vestido caído.
O costureiro não se acalma, mas encontra conforto em sua racionalidade. É claro que foi um truque aplicado pela sua mente. Ele acabara de ler a história triste da moça que morreu antes do casamento. Mesmo assim, por precaução, João segue pé ante pé até o vestido, o agarrou com pressa e enfiou na caixa de qualquer jeito, tampou-a e a largou.
Ao sair desligou as luzes e deu uma última olhada para a caixa. Trancou a porta.

João Carlos demorou para conseguir abrir os olhos, quando o fez percebeu que o sol estava no alto. Em tantos anos de trabalho nunca se atrasara, talvez a noite mal-dormida, talvez a história da noiva impedida pela morte, porém hoje foi a primeira vez.
Sorte sua que a gerente de produção tem as chaves, aliás ela mesma o recepcionou com uma cara de surpresa. João acenou um bom dia e logo esquadrinhou o galpão a procura da caixa com o vestido. Nada achou.
— Cadê o vestido? — Perguntou João
— Qual vestido João?
— Aquele que a mulher… morreu.
A gerente puxou os arquivos e achou um recibo de venda. O vestido já tinha uma dona, que pagou em dinheiro e levou embora a vestimenta. O costureiro deu um suspiro aliviado. Aos poucos João voltou ao seu ritmo de trabalho.
Com as agulhas trabalhando freneticamente, João se perde no tempo e não percebe que está sozinho novamente. Apenas acorda com o barulho da campainha ecoando pelo galpão. O costureiro se levanta e segue até a porta, do outro lado um policial e uma viatura em cima da calçada com a porta aberta, no banco do passageiro uma caixa de papelão.

João Carlos de Oliveira Pacheco. 50 anos, casado, uma filha, profissão costureiro. Essas foram umas das poucas verdades contadas no boletim de ocorrência. O fato do vestido ter pertencido à outra jovem foi simplesmente ignorado pelo costureiro, ao final foi liberado junto com a caixa.
No caminho de casa, João olhava para a caixa preocupado com que faria, não poderia ser coincidência o que acontecera, seria melhor ele perder o dinheiro do que mais uma vida inocente. Em cima de um guarda-roupa pousou a caixa de papelão  esperando o destino que João lhe daria.
No outro dia o costureiro chegou cedo no trabalho e logo sua máquina voltou a funcionar à todo vapor. Assim foi até João receber um telefonema de uma vizinha dizendo que havia algo errado em sua casa. Sem pensar duas vezes ele pega as chaves do carro e ruma rápido com destino certo. Passa semáforos vermelhos e cruzamentos perigosos até conseguir alcançar sua residência. A chave gira a maçaneta. A porta abre. O susto toma conta.

O policial fica pensativo. Não é possível tirar a garota sem fazer barulho. Na outra sala João não consegue parar de chorar, sua mulher chega em casa e se depara com seu marido em frangalhos, soluçando, tentando explicar em vão o que acontecera com sua filha.
O oficial tira um canivete do bolso e sobe em uma cadeira, fará barulho com certeza, porém não meio de descer o corpo da garota de outra forma.
João não consegue falar, mas aponta em direção à cozinha. Sua esposa segue aflita e entra no exato momento que o policial consegue serrar a corda na qual a garota se enforcara. O corpo com um vestido de noiva cai pesadamente no chão fazendo um baque surdo. Na outra sala João chora.

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Press Release – Livro “O Senhor da Luz”

O Senhor da Luz, a fantasia na medida certa

A Editora Novo Século, através de seu selo Novos Talentos da Literatura Brasileira. lança o romance de fantasia fantástica O Senhor da Luz da autora estreante Graciele Ruiz, o primeiro livro da Saga de Dathariun.

Todo o enredo se passa em Dathariun, um mundo incrível a milhares de anos luz da Terra e com diferenças marcantes do nosso planeta. São nove continentes, cada um dominado por um clã com suas próprias particularidades. Além de uma mitologia rica composta de lendas e deuses que enriquecem o cenário.

O título faz referência ao mago Selaizan, conhecido como O Senhor da Luz, que mantinha consigo uma importante caixa, entregue pelo próprio deus da Luz, junto com as chaves que abririam tal objeto. Infelizmente tal mago foi assassinado, mas em seu último suspiro enviou cada chave para uma pessoa de um clã diferente em um continente diferente. O assassinato trouxe desequilíbrio ao mundo, que aos poucos se torna estéril e a hostilidade entre os povos só parece crescer.

Acompanhamos as aventuras de Lícia , uma garota comum e especial ao mesmo tempo. De cabelos vermelhos, olhos dourados e um belo par de asas, Lícia é capaz de manipular o vento e é dona de um coração puro e bom.

De seu falecido avô, Lícia  herda uma das chaves e sabe que abrir a caixa poderá por um fim ao caos que se tornou Dathariun. Mas ela não está sozinha, em sua aventura encontrará diversos personagens inusitados, alguns a ajudarão, enquanto outros perseguirão a caixa por motivos egoístas e vis.

Graciele Ruiz, nascida em Campinas e formada em Economia, nos prende a cada página virada. Apesar de ser seu primeiro romance, é possível ver a maturidade com que encara a jornada da heroína, trazendo ação e suspense na medida certa. Um livro que vale a pena de se ler e uma autora que devemos acompanhar a trajetória. O livro pode ser comprado no site da própria Editora Novo Século ou nas melhores livrarias.

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